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Qualquer modelo de intervenção nos comportamentos adictivos tem taxas de sucesso baixas. A recaída é importante e temos de compreender porque ela ocorre para definirmos estratégias. O modelo aplica-se não só ao uso de drogas mas também a outros comportamentos adictivos (Marlatt et al., 1985). Modelo incompatível com outras abordagens terapêuticas. E.x.: psicodinâmicas.
Identifica duas categorias de determinantes da recaída:
Categoria A – determinantes intrapessoais
▫ lidar com estados emocionais negativos (frustração, depressão) ▫ lidar com estados físicos/fisiológicos negativos (relacionados ou não com as drogas) ▫ intensificação de estados emocionais positivos ▫ testar o controlo pessoal ("vou consumir para ver se não volto a ficar dependente") ▫ ceder a tentações ou desejos de consumir
Categoria B – determinantes interpessoais
▫ intensificação de estados emocionais negativos ▫ conflito interpessoal ▫ pressão social
Factores situacionais ou estados emocionais que imediatamente precedem uma recaída.
1. Estados emocionais negativos (30%) O indivíduo experiencia sentimentos como ansiedade ou depressão antes ou no momento em que ocorre a recaída.
2. Pressão social (27%) Situações em que o indivíduo é submetido à influência de uma pessoa ou grupo os quais exercem pressão para adoptar o comportamento adictivo.
3. Conflito interpessoal (15%) Situações que envolvem conflito interpessoal relativamente recente.
Trabalhar a recaída
1ª Fase – permitir ao indivíduo identificar situações de alto risco, permitindo-o compreender os factores associados a uma elevada probabilidade de adopção novamente de um comportamento adictivo.
Situações de alto risco (há métodos que ajudam o indivíduo a identificar estas situações). ▫ Auto-monotorização: tendo em vista o conhecimento de situações de alto risco, pode dar indicações sobre a motivação para a mudança. ▫ "Ratings" de auto-eficácia (conceito-chave): situações que podem comportar um risco de recaída e crenças acerca de como lidar com essas situações de alto risco; expressão da opinião acerca da capacidade para lidar eficazmente com situações de alto risco. ▫ Autobiografias: 5 a 10 páginas sobre a história do problema. ▫ Descrição de episódios passados de recaídas e fantasias de recaídas: explicar como aconteceram.
2ª Fase – lidar com as situações identificadas anteriormente
▫ Observação naturalista: implica a deslocação do terapeuta ▫ Respostas de "coping" em situações simuladas de alto risco: role.play, dramatização ▫ "Role-play"
3. Estratégias de Intervenção
Metáfora da viagem (tratamento com diferentes fases). Trata-se de ordenar as componentes do programa segundo uma sequência temporal. Tem implicações a dois níveis:
a) permite perceber melhor ao toxicodependente as fases do processo terapêutico;
b) transmite uma mensagem acerca do processo das estratégias de prevenção da recaída, que se desenvolvem segundo um processo longo, com estratégias específicas;
▫ Fornece um quadro de referência para ordenar as componentes do programa ao longo de uma sequência temporal.
1ª Fase: Preparação para a partida
▫ Importância das questões relacionadas com a motivação.
▫ A matriz de decisão: vantagens e desvantagens de praticar o comportamento adictivo como forma de organizar a motivação para a mudança.
▫ Exploração da auto-magem do cliente em relação ao seu comportamento adictivo: centrada em factores externos ou internos.
▫ Descrição da intervenção como um processo gradual. Objectivos distais (longo prazo - abstinência, redução do consumo) VS proximais (curto prazo - competências de relaxamento).
2ª Fase: Partida (i.e., deixar de usar drogas - fase de transição entre a preparação e a realização)
▫ Métodos para abandonar o consumo de drogas: interrupção abrupta ou gradual do consumo ▫ Listagem de apoios sociais ▫ Controlo do estímulo ▫ Cerimónia de partida
3ª Fase: Viagem (i.e., combater o desejo de consumir e aprender a reconhecer e a fazer face a situações e factores psicológicos - racionalizações ou outros mecanismos cognitivos de defesa - susceptíveis de facilitar retorno ao consumo) - fase mais importante deste programa.
Combater o desejo de consumir: analisar as crenças acerca do desejo de consumir.
Principais crenças: ▫ manifestação de sintomas de dependência ("é mais forte do que eu")
▫ aumento de intensidade até ao consumo da substância ("o desejo para com o consumo")
▫ desejo de usar drogas como sinal de que o tratamento fracassou ("o tratamento fracassou")
▫ atribuição do desejo de consumir a factores externos (i.e., externalizar o desejo). Desenvolvimento de um sentimento de "desidentificação" através da externalização do desejo de consumir
▫ a necessidade ou o desejo de consumir como uma resposta que aumenta de intensidade , atinge um pico e depois diminui
▫ desejo de consumir como reacção normal
Distorções cognitivas comuns entre a toxicodependência e a depressão
• Abstracção selectiva • Generalização abusiva (abstracção selectiva) • Responsabilidade excessiva • Assumpção de uma causalidade temporal • Auto-referência • Catastrofizar • Pensamento dicotómico
Distorções cognitivas específicas da toxicodependência
• Quebra da força de vontade absoluta • Corpo sobre a mente (dependência física)
Reestruturação cognitiva e reatribuição para os lapsos (orientar a mudança no sentido do indivíduo externalizar o desejo)
• O lapso como um erro num processo de aprendizagem • O lapso como um acontecimento específico e único no espaço e no tempo • Reatribuição do lapso e factores externos, específicos e controláveis • A abstinência ou o controlo só estão momentaneamente afastados • O lapso como um momento de crise (i.e., combinação de perigo e oportunidade). • "Procedimentos de emergência" para fazer face a um lapso
Eficácia desta modalidade de intervenção
Particularmente em relação ao consumo de tabaco existe evidência robusta em comparação com os resultados obtidos num grupo de controlo (Carrol, 1997) - sopremacia do modelo de prevenção da recaída. Maior eficácia em reduzir a gravidade das recaídas quando estas ocorrem. A abordagem parece revelar-se particularmente eficaz junto de toxicodependentes com níveis elevados de consumo de drogas e défices em competências de "coping".
Paula Marques Março, 2003
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Copyright © 1999 Paula Marques. All rights reserved. Revised: Setembro 13, 2004. |