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A Influência da Infância na Adopção de Comportamentos Aditivos
"Eu precisava anestesiar-me. É este ódio que vem de dentro que eu preciso anestesiar. Ninguém entende que é isso que eu quero. É que só assim eu aguento as memórias que tenho." João, 25 anos, polidependente
O objectivo desta exposição é proporcionar uma melhor compreensão dos motivos subjacentes à adopção de comportamentos de adição, nomeadamente a influência da infância nos comportamentos aditivos do adulto. Eu defendo que existem indicadores educacionais que estão subjacentes à estruturação de uma personalidade dependente, o que faz com que acontecimentos ocorridos durante a infância tenham uma grande importância na emergência de uma personalidade dependente. Pessoalmente, sinto que as pessoas que recorrem abusivamente a álcool, drogas e substâncias ilícitas provém de contextos de vida disfuncionais; têm histórias de vida complexas, marcadas tanto pela escassez de recursos ou como pelo excesso dos mesmos. No século XIX as personalidades dependentes eram descritas como sendo inaptas, degeneradas e de vontade fraca. Na época da segunda guerra mundial era considerado um subtipo da personalidade passiva-agressiva, designada passiva-dependente, caracterizada por uma ligação inadequada a algo, devido a sentimentos de frustração relacionados com o clima de guerra. Actualmente, as personalidades dependentes são caracterizadas por comportamentos de submissão, começando no início da idade adulta e estando presente em vários contextos. De forma geral, são pessoas com dificuldades em iniciar projectos, fazer coisas sem conselhos constantes dos outros. tendem a preocupar-se excessivamente com o medo do abandono, sentindo-se facilmente magoados com a desaprovação dos outros e têm falta de confiança em si próprios (vinculação insegura). Profissionalmente o trabalho com personalidades dependentes é particularmente difícil porque há geralmente uma recusa de reconhecimento do problema e uma grande resistência à mudança. Há dois grandes modelos teóricos que explicam a personalidade dependente: o modelo psicodinâmico e o modelo da aprendizagem social. Segundo os psicanalistas clássicos, a dependência está ligada a acontecimentos ocorridos durante a infância, particularmente na fase oral. A excessiva gratificação ou frustração nesta fase irá levar à adopção de comportamentos de comportamentos adictivos, por exemplo, o consumo de drogas ou comer excessivamente. No âmbito da evolução deste modelo, surgiu uma teoria que defende que a relação mãe-criança (segura/insegura, ansiosa, ambivalente, evitante) determina traços de dependência em adulto (teoria da vinculação). Um outro modelo teórico, o modelo da aprendizagem social, postula que as pessoas aprendem a ser dependentes e encontra também acontecimentos na infância que desencadeiam este comportamento, nomeadamente nas gratificações que os pais dão à criança. As expectativas e crenças da criança face a estes reforços vão influenciar as suas relações com as coisas e com as pessoas. Neste sentido, os comportamentos de dependência são exibidos porque são percebidos pela pessoa como podendo trazer recompensas, por exemplo alivio da dor. Os pais que não permitirem à criança envolver-se numa aprendizagem por tentativas e erros estão a contribuir para o desenvolvimento de uma adulto pouco independente, com dificuldades em lidar com novas situações. Actualmente este modelo também tem associado a dependência à depressão uma vez que em ambos os casos a pessoa percepciona-se como impotente e desamparada.
Existem vivências infantis que estão subjacentes à estruturação de uma personalidade dependente. A nível da personalidade, a repetição compulsiva de actos, grande sensibilidade a acontecimentos externos (sobretudo de natureza afectiva/vinculativa), narcisismo e negação de sentimentos como tristeza e medo parecem fazer parte da personalidade dos indivíduos que apresentam comportamentos de dependência, para além de vivências infantis instáveis. Personalidades nascísicas, anti-sociais, borderline, relacionam-se com a adicção. Dificuldades em lidar com os problemas, conflitos familiares ou profissionais são factores que podem originar ou precipitar a emergência de comportamentos de dependência, não havendo possibilidade de estabelecimento de uma relação de causa-efeito, como acontece quando falamos do comportamento humano. A dependência parece emergir como uma forma disfuncional de obtenção do prazer, havendo todo um historial, iniciado na infância, que conduz à estruturação de uma personalidade dependente. Assim pode dizer-se que a dependência de algo ou de alguém se relaciona com vivências ocorridas desde tenra idade, levando à estruturação gradual de uma personalidade pouco resistente ao fracasso. Teoria e prática mostram que nas histórias de vida dos indivíduos dependentes estão presentes angústias infantis, problemas não resolvidos e uma tendência para sentimentos de ansiedade e depressão. No entanto, outros factores poderão estar subjacentes à dependência, uma vez que estamos a falar do comportamento humano, logo, algo multideterminado. O recurso à adição surge inicialmente como forma fácil e momentânea de resolução dos problemas, interessando o aqui e o agora em detrimento do futuro, que é visto como inexistente ou demasiado longínquo. Prevalece o querer sobre o poder, a realização imediata dos desejos e a superação das angústias e frustrações sentidas como não mais suportadas. Concluiu-se que existem factores precipitantes na infância que levam à adopção de comportamentos de dependência na fase adulta. A ênfase na autonomia por oposição à dependência parece ser uma forma de prevenção primária. Nesse sentido, os programas de prevenção deverão também incidir ao nível das práticas educativas parentais, para além das intervenções, já consideradas habituais, em escolas e outros contextos similares.
(Breve apresentação sobre a temática das dependências, utilizando o método expositivo AIDDA, no âmbito do curso "Técnicas de Apresentação" na Soprofor - Sociedade Promotora da Formação, Lda.) Paula Marques 18 de Junho de 2003
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